A INTERFACE VERSOS E MÚSICA: A TRAJETÓRIA DA MULHER BRASILEIRA RUMO À CONQUISTA DE UMA IDENTIDADE SOCIAL

 

Maria da Conceição Santos Soares - UFBA

 

Introdução

           

Este trabalho faz parte de um projeto maior, intitulado Resgatando Versos Através da Música Popular Brasileira.Como parte inicial da proposta de trabalho, pretendo aqui, através de textos poéticos selecionados da música popular brasileira, fazer um passeio enfocando o signo mulher e o seu papel na relação amorosa como temática central. São textos representativos que datam do início da década de 40 e vão até o final dos anos 90.

Não tenho a pretensão de esgotar este tema, mas de ressaltar algumas diferenças que vão surgindo de um texto para outro à medida que o tempo vai passando, e a imagem da mulher brasileira se modificando perante toda a sociedade.

A multiplicidade de formas em que ela se apresenta nestes textos me leva a pensar na atualização de elementos da lírica amorosa romântica, utilizando para isto de recortes de situações relatadas de relações amorosas, que se concretizaram ou não, mas que ficaram na memória. O passado, o presente, e o futuro por vezes se defrontam através da memória.

As semelhanças entre os textos de autores diferentes, de épocas e contextos culturais diferentes são várias e muito representativas. As associações podem ser feitas imediatamente ao compará-las.

Escolhi o texto lírico como base para estudo, porque ele se adequa ao tipo de análise que me proponho a fazer. Recortes de situações de relações amorosas de primeira pessoa ou de primeira voz. O eu-lírico. A expressão individual.

A poesia lírica que nasceu da necessidade de uma expressão individual, e por ser habitualmente acompanhada pela flauta e pela lira passou a chamar-se lírica, e traz imagens sonoras e plásticas. O elemento musical é intrínseco às palavras. A musicalidade dos textos se faz presente numa leitura cuidadosa, quer os instrumentos musicais se apresentem ou não.

O texto lírico romântico acredita na poesia como expressão do “eu”. A relação amorosa é muitas vezes abordada num tom nostálgico. A solidão e a falta que o outro faz, também se apresentam no texto, assim como, a incompreensão, a dúvida e a infidelidade. O amor por vezes é correspondido e por outras vezes não. Mas o sentimento e a expectativa do autor em relação ao outro, parecem muito explícitos nos textos, o que nos confirma que a produção literária da lírica romântica é uma expressão individual de pessoalização do poético que se utiliza das relações entre som, sentido, ritmo e imagem. O sujeito lírico comanda essas relações através da visão subjetiva.

 

Trajetória

 

Começando a caminhada no início da década de 40, utilizarei a canção intitulada Emília de autoria de Haroldo Barbosa e Wilson Batista, grande sucesso da época, para ilustrar a imagem da mulher dentro do universo masculino, naquele momento.

 

              Emília

 

       (1942, Haroldo Barbosa & Wilson Batista)

       Intérprete: Vassourinha (Mário Ramos)

 

Eu quero uma mulher

Que saiba lavar e cozinhar

Que de manhã cedo

Me acorde na hora de trabalhar

 

Só existe uma

E sem ela eu não vivo em paz

Emília, Emília, Emília

Eu não posso mais

 

Ninguém sabe igual a ela

Preparar o meu café

Não desfazendo das outras

Emília é mulher

 

Papai do céu é quem sabe

A falta que ela me faz

Emília, Emília, Emília

Eu não posso mais

 

Pensando em termos da identidade social, que é uma conquista do ser humano, e da identidade biológica que é uma atribuição da natureza, fica claro que o autor se utiliza de um discurso que inferioriza a mulher e também que os papéis sexuais são estereotipados na sociedade patriarcal da época. Emília faz falta, não porque seria a outra parte que o complementaria, mas principalmente, para desempenhar funções que condenam a mulher apenas à condição natural de ser biológico. A mulher fica impossibilitada de construir sua própria identidade social, estigmatizada pela diferença entre os sexos. O discurso cultural da época obrigava a mulher a aceitar um lugar subalterno. Ela apenas podia exercer as atividades que sua natureza biológica lhe permitia.

Nos anos 70, Antônio Carlos Jobim, produz a canção Falando de Amor que comentaremos a seguir:

 

          Falando de Amor

 

                  (1979, Tom Jobim)

 

Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia

Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro canção

Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor

Chora flauta, chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso, bem baixinho
Nesse choro falando de amor

Quando passas, tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol

Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro canção

Lá no fundo do meu coração

 

A mulher agora é objeto de desejo para uma relação amorosa. O poeta se declara perdidamente apaixonado e confessa até mesmo esquecer do futebol, a grande paixão da maioria dos homens brasileiros. Ao se declarar apaixonado, as qualidades da mulher por ele exaltadas são: o cheiro, o jeito de flor e a beleza física.

A mulher ainda não lhe pertence e parece até que ainda nem notou a sua aflição. Neste texto, o poeta já pede, suplica e se confessa incapaz de tê-la quando diz e repete se eu pudesse.

A imagem da mulher neste universo masculino ocupa um lugar de destaque como objeto de desejo para complementação do “eu” do poeta e o discurso exalta as qualidades femininas. A subjetividade do autor é representada pelas suas motivações pessoais.

No final dos anos 80, a canção Uma Nova Mulher, dos compositores Paulo Debétio e Paulo Rezende é um grande sucesso na voz da cantora Simone Bittencourt, é este texto que usarei para exemplificar esta etapa do trabalho.

 

         Uma Nova Mulher

 

                  (Paulo Debétio & Paulo Rezende)

 

Que venha essa nova mulher

De dentro de mim

Com olhos felinos, felizes

E mãos de cetim

E venha sem medo das sombras

Que rondam o meu coração

E ponha nos sonhos dos homens

A sede voraz da paixão

 

Que venha de dentro de mim

Ou de onde vier

Com toda malícia e segredos

Que eu não souber

Que tenha o cio das forças

E lute com todas as forças

Conquiste o direito de ser

Uma nova mulher

 

Livre, livre, livre para o amor

Quero ser assim, quero ser assim

Senhora das minhas vontades

E dona de mim

 

Que venha de dentro de mim

Ou de onde vier

Com toda malícia e segredos

Que eu não souber

E tenha o cio das forças

E lute com todas as forças

Conquiste o direito de ser

Uma nova mulher

 

Livre, livre, livre para o amor

Quero ser assim

Senhora das minhas vontades

E dona de mim

 

Que venha essa nova mulher

De dentro de mim

Que venha de dentro de mim

Ou de onde vier

 

Este texto revela uma mulher desejosa de mudanças fortes, de transformações em sua vida, e em seu modo de ser. Ela agora se mostra um ser que pensa e quer ter direito as decisões sobre si mesma.

Não importa de onde lhe venham as forças para a grande transformação que se faz necessária no momento, o seu grande desejo é de se modificar e conquistar o direito à liberdade de ação e de pensamento, o que inclui aí também a liberdade para o amor.

Uma nova mulher está na memória de todos que viveram essa época como um hino que seduzia e pedia socorro, e ao mesmo tempo mostrava a força e a determinação da mulher. O apelo de libertação é gritante, e a tomada de consciência determinante.

Nos anos 90 a canção intitulada Sozinho de autoria de Peninha interpretada por Caetano Veloso tomou conta do país e permaneceu em primeiro lugar em todas as paradas de sucesso por um longo período. O seu texto abaixo é o que veremos na seqüência.

 

               Sozinho

 

    (Peninha)

 

Às vezes no silêncio da noite

Eu fico imaginando nós dois

Fico ali sonhando acordado, juntando

O antes, o agora e o depois.

 

Porque você me deixa tão solto

Porque você não cola em mim

Tô me sentindo muito sozinho

 

Não sou nem quero ser o seu dono

É que carinho às vezes faz bem

Eu tenho meus desejos e planos secretos

Só abro pra você mais ninguém.

 

Porque você me esquece e some

E se eu me interessar por alguém

E se ela de repente me ganha

 

Quando a gente gosta é claro que a gente cuida

Fala que me ama só que é da boca pra fora

Ou você me engana ou não está madura

Onde está você agora?

 

No corpo deste texto, o “eu” poético, se imagina com a sua amada, sonha acordado, e analisa o antes, o durante e o depois. No depois, ele se sente desprezado e abandonado e conseqüentemente muito solitário.

No seu discurso dirigido à mulher que ama, o sujeito lírico poético diz que não é possessivo e que, portanto, não pretende ser dono dela. Diz que confia nesta pessoa inclusive a ponto de dividir com ela seus desejos e até mesmo seus planos secretos. Mas, não entende porque ela não o procura e questiona o que acontecerá se ele, por se sentir tão só, se interessar por outra mulher e for conquistado por ela.

O “eu” poético neste texto acredita que se deve cuidar do ser amado e sua grande dúvida é se e é enganado ou se o seu grande amor, ainda é imaturo, para se comportar da maneira que para ele seria a certa, a adequada, a ideal.

Nesse momento, a mulher já toma posição de liderança do rumo do relacionamento amoroso. O homem já não é a figura central da sua vida. Ela já se permite se afastar por algum tempo ou por tempo indeterminado sem ter que justificar sua atitude. O homem passa a ser agora o ser carente e dependente que nunca demonstrou ser.

No final dos anos 90, a canção de título Garganta que tem como autor Totonho Villeroy, numa belíssima interpretação da jovem cantora Ana Carolina, transmite uma mensagem de liberdade e auto-suficiência, qualidades que são pertinentes a algumas mulheres que vivem o momento atual. Vejamos o seu texto a seguir:

 

                         Garganta

 

(Totonho Villeroy)

 

Minha garganta estranha quando não te vejo

Me vem um desejo doido de gritar

Minha garganta arranha a tinta e os azulejos

Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar

 

Venho madrugada perturbar teu sono

Como um cão sem dono me ponho a ladrar

Atravesso o travesseiro, te reviro pelo avesso

Tua cabeça enlouqueço, faço ela rodar

Sei que não sou santa, vezes vou na cara dura,

Vezes ajo com candura pra te conquistar

Mas não sou beata, me criei na rua

E não mudo minha postura só pra te agradar

 

Vim parar nessa cidade por força da circunstância

Sou assim desde criança, me criei meio sem lar

 

Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É pra depois te abandonar

 

Aprendi a me virar sozinha

E se eu tô te dando linha

É pra depois te abandonar

 

O “eu” poético neste texto é uma mulher que age às vezes com muita firmeza e outras com candura para conquistar o amado. Mas que não abre mão dos seus valores e nem da sua postura para agradar o homem amado.É uma mulher que declara que não é santa, que se criou quase sem lar, e que por força das circunstâncias, aprendeu a se virar sozinha. Acrescenta ainda, que já pode viver só e que se por acaso der esperança a algum homem, é só para depois abandoná-lo.

Fica claro aqui, que a mulher é independente, tem consciência do seu papel feminino, e do seu lugar no mundo e na sociedade em que vive. E, parece até, que neste momento, existe uma atitude de frieza, vingança e defesa em relação ao homem, e ao tratamento que recebeu dele no passado.

A trajetória, o papel na relação amorosa, a identidade social, enfim, as mutações do código cultural se processaram muito lentamente durante as últimas seis décadas. A lírica integrada através da referencialidade sígnica, projetada no significante poético, permite mostrar o drama sociocultural da mulher brasileira através dos textos que foram utilizados para a amostra neste trabalho.

 

Conclusão

 

Ficam na memória do povo brasileiro, lembranças fragmentadas, ou não, da situação da mulher representada por imagens que sugerem submissão, objeto de desejo dentro de uma relação amorosa, desejo de libertação e busca de identidade social, posição de liderança do rumo do relacionamento amoroso, e por fim a mulher liberada, independente, e consciente do seu lugar na relação amorosa, na sociedade, e no mundo.

Através da música, da poesia, da arte, se pode emocionar o ser humano e deixar gravado na memória um registro dos desejos inerentes àqueles que produzem essa arte capaz de transformar e muitas vezes melhorar o mundo em que vivemos.

Ainda fazendo uso de palavras dos autores dos textos abordados neste trabalho, gostaria de complementar minha fala, me utilizando da lírica romântica e dizendo o seguinte:

Eu posso saber lavar e cozinhar, negar um beijinho a quem anda perdido de amor, e fazê-lo até mesmo esquecer do futebol. Posso ser motivo de reflexão para quem fica sonhando acordado pensando no antes, no agora e no depois, e se realmente é amado. Mas sou livre para o amor, senhora das minhas vontades e dona de mim. Aprendi a me virar sozinha por força das circunstâncias, é verdade, mas nem por isso, pretendo dar linha a alguém para depois abandoná-lo. Ser mulher é saber conquistar e se deixar conquistar, sem que para isso, seja necessário usar.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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